Eles ouvem a Rádio Latina todos os dias. Hoje somos nós a ouvi-los


São a prova de que o título de uma certa canção de 1979 chamada ‘Video Killed the Radio Star’ (o vídeo matou a estrela de rádio) não acertou na previsão. Porque a rádio continua viva e bem viva. Balbina, Miguel, Armanda, Domingos e Rosa são cinco portugueses que vivem ou já viveram no Luxemburgo e que em comum têm uma coisa: não trocam a Rádio Latina por nada.

Balbina Parracho, a ouvinte imparável

Balbina Parracho é uma das antigas. Chegou ao Luxemburgo em junho de 1970 de forma um pouco invulgar: táxi. Viajou de Lisboa ao Luxemburgo com um taxista que queria conhecer o Grão-Ducado e com duas outras pessoas que não voltou a ver, conta-nos a portuguesa de 87 anos. Trabalhou numa discoteca e nas limpezas, colaborou com várias associações e clubes desportivos e participou em campanhas solidárias. Mãe de três filhas e sempre numa roda-viva, mas com tempo para a rádio – e para os bolos. “Sempre que estava em casa ou mesmo em alguns trabalhos, tinha o rádio ligado”, conta-nos uma das filhas, frisando que os discos pedidos sempre foram o programa predileto da ‘Dona Balbina’, como é conhecida na Rádio Latina. “Não posso dizer que a rádio a ajudou a integrar-se porque quando a rádio nasceu já a minha mãe estava muito integrada”, refere. Por outro lado, Balbina ajudou na integração de muitos. “Sempre ajudou pessoas que vinham para cá e que não tinha a documentação em ordem. Fez muita coisa”, acrescenta.

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Já na reforma, encontrou outra maneira de cuidar, e é aqui que entram os bolos. Era uma forma de cuidar das pessoas e de lhes dar uns “miminhos”. E a Rádio Latina também os recebeu. Ao longo dos anos, Balbina adoçou muitos dias de trabalho da equipa. Em troca, a companhia diária. Hoje, a caminhar para os 90 anos, a Dona Balbina continua a ter um rádio na cozinha, sempre ligado.

Miguel Miranda, o ouvinte peregrino

Em 2024, Miguel, 51 anos, caminhou durante 66 dias, entre o Luxemburgo e Santiago de Compostela e, consigo, levou a Latina. Ao longo de mais de 2.200 km, este motorista de autocarro foi ouvindo alto e a bom som a estação que anos antes descobriu meio que por acaso: “Por mais estranho que pareça, [começar a ouvir a Latina] foi um imprevisto”. Tinha chegado de Aveiro há uns quatro ou cinco meses. O mês era julho e o ano 1999. “Deslocava-me para Esch-sur-Alzette, porque era transfronteiriço, e procurava uma rádio para ouvir porque em certos momentos as rádios francesas deixavam de dar ao passarmos a fronteira. E de repente apareceu a Rádio Latina a falar em português”, recorda. Rendeu-se, tornando-se um ouvinte fiel, apenas afastado das ondas da Latina nos anos em que trabalhou em França, na altura ainda no setor da construção. “Um dia ia a ouvir a Latina [no autocarro] e um dos locutores disse ‘Mais uma vez bom dia’ e a cliente que entrava naquele momento no autocarro respondeu ‘Bom dia’”, pensando que era Miguel a falar-lhe.

Ouve a Latina no trajeto em que trabalha e também no caminho para Santiago, que este ano fará pela quarta vez. Em 2024, partilhou a viagem com os locutores e ouvintes. “Sempre que tinha rede tentava ouvir a Latina”. Entretanto, passou a ser conhecido como ‘Miguel, o nosso peregrino’.

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O que significa a rádio para si? “É uma família. Pela forma como nos acolhem e nos ouvem”. Mesmo com os avanços da tecnologia, para Miguel, a rádio continua a ser um meio pertinente. Gaba-lhe, em particular, a instantaneidade que lhe é característica, sobretudo no que toca a informação sobre o trânsito, preciosa no dia a dia de um motorista.

Armanda Cação, a ouvinte lutadora

Armanda tinha 17 anos quando o futuro noivo veio para o Luxemburgo. Namoraram por carta uns anos, até que ela se juntou a ele, em 1977. Moveu-a o amor. Fala-nos de Buarcos, em Portugal, onde goza a reforma, aos 71 anos. Mas continua entre “cá e lá”. É no Grão-Ducado que estão os seus dois filhos e um par de netos. Antes da pensão, trabalhou nas limpezas e a Latina era a companhia nas jornadas de trabalho. Lembra-se daquele 5 outubro de 1992, quando a Latina começou a emitir? “Foi maravilhoso. Ouvirmos a nossa língua na rádio… Não há explicação”. “Quando eu cheguei ao Luxemburgo, era muito raro ouvir-se a língua portuguesa. Quando ouvíamos, ficávamos todos contentes”, recorda, salientando que as idas a Portugal eram também mais raras, pelo que ter uma rádio a dar notícias em português foi “maravilhoso”.

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Confessa que, na altura, ligava para os discos pedidos todos os dias. “Como é que eu perdi aquele vício é que eu não sei”, ri-se. Hoje, reformada, os hábitos mudaram. Em Portugal, passa muito tempo na praia e nas terras. Mas no carro e em casa, a Latina continua a ecoar e ainda acorda todos os dias ao som da Latina, que é, literalmente, o seu despertador.

Mas Armanda lembra-se também das fases menos boas. Numa delas andou a bater de porta em porta a pedir assinaturas para que não fechassem a estação: “A nossa Rádio Latina tinha de continuar. E continuou”.

Domingos Magalhães, o ouvinte dos bolos

Camionista de profissão, pasteleiro nas horas vagas, chegou a vez de apresentar Domingos Magalhães. Passou pela Alemanha antes de assentar arraiais no Grão-Ducado. Foi quando teve um acidente, que o afastou das rotas internacionais, que a Latina passou a ser a única rádio a tocar no camião, que agora guia apenas em território nacional. Tal como Miguel, para Domingos, a informação é crucial, especialmente a de trânsito. Mas também ouve pela música, pelos programas e pelo convívio. Já apareceu em eventos da rádio munido do seu cavaquinho, determinado a animar.

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Além da música, amigos e radialistas conhecem-lhe outro talento: o de pasteleiro. “Gosto de fazer bolos nos tempos livres”, partilha. E muitos desses bolos também vão parar à morada da Latina. Não faz ideia de quantos já confecionou para a equipa da estação, mas sabe que “já foram alguns”. “E recebi bons elogios”, adianta. Domingos é já parte da casa. Conhece a equipa, junta-se a ela em momentos de festa e eventos. É um amigo: “Sinto o apoio e carinho da equipa, como acho que eles também sentem o nosso. O convívio é bonito”. Domingos destaca também o papel informativo da rádio, em português: “Às vezes não percebemos certas coisas e a rádio esclarece aquilo que se passa”. Bem-disposto. É assim que Domingos quer continuar. Já os bolos são uma forma de demonstrar carinho. Sobre se o próximo será de laranja ou chocolate ou uma reedição do Bolinhol de Vizela, que os locutores não esquecem, “isso aí é segredo”. Ainda tenho de pensar e ver o que vou fazer”, brinca.

Rosa Mendes, a ouvinte de todas as horas

Rosa Mendes ouve Latina “de manhã à noite”. Originária de Seia, tem 60 anos e vive no Luxemburgo desde 1999. Nunca tinha pensado em deixar Portugal, mas naqueles anos o marido começou a ir para a Suíça em trabalho, depois Andorra até que acabou no Grão-Ducado. E Rosa e o filho juntaram-se a ele, começando assim uma nova vida. “No início foi muito complicado, chorei muito (…). Tinha saudades da família, dos amigos, da casa. Foi uma mudança um pouco radical”, recorda. Quase 30 anos depois, diz-se muito feliz no Luxemburgo, onde considera que tem sido muito bem tratada, no trabalho – nas limpezas e a cuidar de crianças – e fora dele. E a rádio, onde entrou? “Ouço desde que vim para cá. Nunca deixei de ouvir a Latina. Participo sempre e estou sempre atenta. Ouço a partir das 6h da manhã e até às 20h ou 21h”, garante.

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E o que a levou a entregar-se de corpo e alma à estação? “Em parte, a língua. Gostamos de ouvir uma rádio portuguesa fora do nosso país”. A trabalhar ou de férias, em Portugal ou no Luxemburgo, Rosa ouve a Latina todos os dias. No trabalho, a fazer as limpezas em casa privadas, põe os auscultadores, carrega no botão e assim vai dando conta das tarefas. Aquilo de que mais gosta na rádio é interação com os locutores, mas também tem sempre um ouvido atento durante a informação, para estar a par do que se passa.

Aos 60 anos tem a certeza de que, se fosse mais jovem, a rádio poderia ter sido a sua profissão. “Via-me a trabalhar numa rádio. Gosto muito de comunicar, de interagir. Se tivesse menos 10, 20 ou 30 anos, possivelmente tentaria”, diz. Embora nunca seja tarde, Rosa Mendes pretende continuar como ouvinte: “[A Rádio Latina] é sempre a minha companhia. Mesmo nos momentos em que estamos mais tristes, consegue dar-nos um sorriso, uma gargalhada (…). Que continue por muitos anos e que eu esteja cá para ouvir”.

A Rádio Latina emite há 33 anos. Foi fundada em 1992, produto das rádios pirata. Entre informação e entretenimento, emite maioritariamente em português, mas também noutras línguas, com programas assinados pelas equipas guineense, italiana, angolana e cabo-verdiana. Pode ser ouvida nas frequências 101,2 ou 103,1 ou 91,7 FM. Em todo os país na DAB+ e no mundo inteiro em latina.lu.

Texto: Diana Alves | Foto: Anouk Antony